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sábado, 15 jun, 2024
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Abertura da Kizomba recebe Aílton Graça em Diadema

Edição do Kizomba, no Teatro Clara Nunes, lotou para assistir a um show de dança afro e tambor de caboclo, cenas do filme Mussum e conversar com ator que interpreta o protagonista

Desde o dia 1o de novembro já vêm acontecendo em Diadema atividades da 22a Kizomba – Festa da Raça, a grande celebração do mês da Consciência Negra. No entanto, a abertura oficial só ocorreu na última sexta-feira (10), quando quase 400 pessoas lotaram o Teatro Clara Nunes para festejar e receber um ilustre “filho” da cidade: o ator e carnavalesco Aílton Graça.

Ele, que nasceu e foi criado na Zona Sul de SP, bem na divisa de Diadema, costumava frequentar a cidade, onde estudou teatro e vendia bebidas como camelô em dias de grandes shows na Praça da Moça. Hoje, consagrado, Aílton voltou à cidade que sempre o acolheu e passou horas conversando sobre sua história e respondendo questões da plateia.

Exposição

Mas antes de adentrar o teatro, o público foi recepcionado por uma exposição de arte, também parte da Kizomba: a exposição “Ancestralidade, Respeito e Resistência”. Ansioso por apresentar seus quadros pela primeira vez, Diego Treze chegou cedo ao Espaço Cândido Portinari, no saguão de entrada do Clara Nunes.

“Minhas obras representam Omolu e Nanã e são baseadas no Axexê, o ritual fúnebre da cultura Yorubá de devolver a matéria de volta à terra,” contou o artista, que também é tatuador, e fez pinturas cercadas dos tradicionais búzios. “Pra mim, estar aqui na abertura da Kizomba é uma alegria que eu não sei nem explicar. Acompanhar a criação do projeto e me ver aqui rodeado de tantos artistas da cidade me deixa numa euforia que não tem explicação. É uma forma de compartilhar o axé, a nossa cultura.”

A exposição possui também trabalhos dos artistas Aran Viera, Igor Anthony, Geni Santos, Márcia Damaceno, R.J. Amorim, William Teodoro e de participantes do Projeto 60+ e poderá ser visitada até o dia 2 de dezembro.

Festa da Raça

Quando as luzes se apagaram no teatro, a plateia de negros e negras, em sua imensa maioria, foi transportada à África. Por cerca de uma hora, puderam acompanhar o espetáculo de música e dança “TAMBOR, CORPO, VOZ E ANCESTRALIDADE”, com a Comunidade Negra de Diadema, a Cia de Dança da Melhor Idade, o grupo Samba de Caboclo e participantes do Teatro 60+, sob coreografia de Jurandir de Souza.

Foi difícil não acompanhar o batuque e logo muitos estavam dançando e batendo palmas em sincronia. No palco, danças de orixás, outras manifestações típicas de religiões de matriz africanas e muito simbolismo e representatividade.

“Esta é nossa Kizomba,” apresentou a coordenadora de Políticas para a Promoção da Igualdade Racial (CREPPIR), Marcia Damaceno. “Para mostrar a esta sociedade racista que a gente quer respeito à nossa história, à nossa dança, ao nosso jeito de ser. A gente traz no sangue a herança da kilombagem, de lutar contra o racismo e de efetivar as políticas de igualdade racial. O Brasil tem que respeitar nosso povo preto e indígena, para que possamos fazer deste país, e de Diadema, um lugar mais justo, mais igualitário e para que todos e todas tenham vez. Axé!”

Apesar do Prefeito José de Filippi Jr estar na plateia, quem representou a municipalidade foi a vice-prefeita Patty Ferreira, a primeira mulher negra a ocupar o cargo. “Axé, Saravá, Motumbá,” saudou Patty. “Eu só queria pontuar aqui a importância da luta. Diadema está fazendo a diferença, com o Plano Municipal Decenal de Igualdade Racial, abraçado por todas as secretarias; com a Ouvidoria da Igualdade Racial, para combater o racismo; a própria CREPPIR; o Programa Dandara e Piatã, que respeita a lei e ensina a História do Povo Africano e Indígena nas escolas. Isso é ser uma cidade antirracista. E isso foi fruto de muita luta de todos vocês.”

“Cacildis!”

O ator Ailton Graça foi chamado ao palco, sob fortes aplausos, para uma entrevista informal com a cineasta local Thais Scabio. Ele, que está em cartaz com “Mussum, o filmis”, foi o grande vencedor do prêmio de melhor ator no Festival de Gramado, justamente por interpretar o trapalhão. Que, aliás, era tão sambista quanto o próprio Aílton, hoje presidente da Lava Pés, a escola de samba mais antiga de São Paulo. Ele falou sobre o filme e exibiu trechos exclusivos da película.

Ao longo do bate-papo, muita gente descobriu pela primeira vez que o ator estudou teatro aqui na cidade, no mesmo palco que agora o recebia. “Eu tenho uma relação muito forte com Diadema. Quando tinha show aqui na Praça da Moça, eu vinha vender refrigerante para ter dinheiro e poder comprar meus livros. Quando não tinha, estudava aqui na biblioteca. Diadema me acolheu e tem um peso muito grande na minha sobrevivência,” afirmou.

Graça falou sobre teatro, televisão, cinema. Falou do racismo estrutural. E contou dos anos que passou preparando (e se preparando) para este filme e da surpresa com os prêmios que a obra vem angariando (“Ainda não processei direito tudo isso!”). Respondeu perguntas do público e foi tietado com muito carinho por todos.

Também falou sobre carnaval e que seu objetivo enquanto carnavalesco não é fazer mais do mesmo, mas resgatar o samba negro da espoliação branca que o espetáculo vem sofrendo. “Falam pra mim ‘Ah, mas você só vai falar de negros em seus sambas-enredos?’ e a resposta é claro que sim. Além disso quero que minha escola de samba ajude jovens negros a realizarem seus sonhos, seja dirigir um filme, ocupar espaços políticos, estudar em Harvard, ou simplesmente ser um bom cidadão – quero que ali seja um espaço de formação e de poder para o povo preto.”

A 22a Kizomba – Festa da Raça vai até 3 de dezembro, com atividades gratuitas praticamente todos os dias. Confira a programação completa.

Da Redação

Foto: Divulgação

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