Uma figura de cabelos brancos segura uma placa de costas escrita “Vendo Ouro”, enquanto esperamos o sinal do teatro. “Será que é a Vera Holtz? Está tão imóvel.” Assistimos a um homem retirar a boneca e ouvimos os gemidos de sustos da plateia. O palco é preenchido com a presença imponente da atriz que, aos 71 anos, mostra-se o contrário de imutável: com muita dinâmica e improviso, ela encena diversas personagens, e também é narradora, canta e domina o palco como poucos conseguem.
Quem divide o espaço com Vera é o músico italiano Federico Puppi, autor da trilha sonora original da peça, que canta e toca diversos instrumentos durante o espetáculo “Ficções”, produzido e dirigido por Rodrigo Portella e idealizado por Felipe Heráclito Lima, no Teatro Municipal Maestro Flávio Florence. Foram quatro dias de turnê em Santo André, mas a apresentação já passou por diversas cidades e retornará ao Teatro Faap, em outubro deste ano.
A história é inspirada no livro “Sapiens”, do escritor e professor israelense Yuval Noah Harari, publicado em 2014 e que já conta com mais de 25 milhões de cópias vendidas pelo mundo. Imaginar e criar histórias coletivamente é o nosso grande diferencial como humanidade. Assim narra o livro do autor e é o mote do espetáculo, que Vera exemplifica com os conceitos de nação, sistemas políticos, deuses e muito mais.
O que foi inventado pelos homens sábios? Por que acreditamos que temos o controle e somos donos deste planeta? O professor Harari também é personagem da história, em uma brincadeira que a atriz faz com a plateia, dizendo que o marido leva o mesmo nome do autor do best-seller. Em ligação por “telefone”, as indagações da obra são trazidas pelo marido, que está sempre em crise com os modos de sobrevivência da humanidade.
Magistralmente, a protagonista trava uma conexão com o público por meio de muitas perguntas, improvisando e integrando os presentes ao jogo da narrativa. Canta, intercala diversos personagens e, no auge do espetáculo, interpreta as mulheres que sofrem na nossa nação.
Para citar mais de um autor, o filósofo e ensaísta sul-coreano Byung-Chul Han diz em seu livro: “A crise narrativa da modernidade se deve ao fato de que o mundo está inundado de informações. O espírito da narração está sendo sufocado pela enxurrada de informações. (…) Na hiperatividade atual, em que é importante não deixar que o tédio apareça, nunca alcançamos o estado de profunda distensão psíquica.”
Saímos impactados, com mais perguntas do que quando entramos. E a imagem do início do espetáculo só mostra o quanto precisamos das contradições para evoluirmos como espécie, sempre mutantes dentro de contextos desafiadores que se alternam com o tempo.
Esse texto foi escrito em colaboração com a jornalista Natália Regazzo
https://nregazzo.substack.com/
Foto de Ale Catan – Vera Holtz em foto de divulgação de “Ficções”
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