14.5 C
São Paulo
quinta-feira, 14 maio, 2026
Portal Big ABC by Juliana Bontorim
Principal

Ficções, com Vera Holtz, traz crise da narração dos homens sábios

Uma figura de cabelos brancos segura uma placa de costas escrita “Vendo Ouro”, enquanto esperamos o sinal do teatro. “Será que é a Vera Holtz? Está tão imóvel.” Assistimos a um homem retirar a boneca e ouvimos os gemidos de sustos da plateia. O palco é preenchido com a presença imponente da atriz que, aos 71 anos, mostra-se o contrário de imutável: com muita dinâmica e improviso, ela encena diversas personagens, e também é narradora, canta e domina o palco como poucos conseguem.

Quem divide o espaço com Vera é o músico italiano Federico Puppi, autor da trilha sonora original da peça, que canta e toca diversos instrumentos durante o espetáculo “Ficções”, produzido e dirigido por Rodrigo Portella e idealizado por Felipe Heráclito Lima, no Teatro Municipal Maestro Flávio Florence. Foram quatro dias de turnê em Santo André, mas a apresentação já passou por diversas cidades e retornará ao Teatro Faap, em outubro deste ano.

A história é inspirada no livro “Sapiens”, do escritor e professor israelense Yuval Noah Harari, publicado em 2014 e que já conta com mais de 25 milhões de cópias vendidas pelo mundo. Imaginar e criar histórias coletivamente é o nosso grande diferencial como humanidade. Assim narra o livro do autor e é o mote do espetáculo, que Vera exemplifica com os conceitos de nação, sistemas políticos, deuses e muito mais.

O que foi inventado pelos homens sábios? Por que acreditamos que temos o controle e somos donos deste planeta? O professor Harari também é personagem da história, em uma brincadeira que a atriz faz com a plateia, dizendo que o marido leva o mesmo nome do autor do best-seller. Em ligação por “telefone”, as indagações da obra são trazidas pelo marido, que está sempre em crise com os modos de sobrevivência da humanidade.

Magistralmente, a protagonista trava uma conexão com o público por meio de muitas perguntas, improvisando e integrando os presentes ao jogo da narrativa. Canta, intercala diversos personagens e, no auge do espetáculo, interpreta as mulheres que sofrem na nossa nação.

Para citar mais de um autor, o filósofo e ensaísta sul-coreano Byung-Chul Han diz em seu livro: “A crise narrativa da modernidade se deve ao fato de que o mundo está inundado de informações. O espírito da narração está sendo sufocado pela enxurrada de informações. (…) Na hiperatividade atual, em que é importante não deixar que o tédio apareça, nunca alcançamos o estado de profunda distensão psíquica.”

Saímos impactados, com mais perguntas do que quando entramos. E a imagem do início do espetáculo só mostra o quanto precisamos das contradições para evoluirmos como espécie, sempre mutantes dentro de contextos desafiadores que se alternam com o tempo.

Esse texto foi escrito em colaboração com a jornalista Natália Regazzo
https://nregazzo.substack.com/

Foto de Ale Catan – Vera Holtz em foto de divulgação de “Ficções”

Acesse o site para mais notícias e visite nossa página no Instagram @portalbigabc

Artigos Relacionados

Parque de Santo André recebe feira de adoção responsável de animais

Juliana Bontorim

Corrida de Conscientização da W3G Reúne Participantes no Parque Central

Juliana Bontorim

Programa de estágio aposta em aumento da diversidade e representatividade dos candidatos

Juliana Bontorim
Carregando....

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Aceitar Saiba Mais

Política de Privacidade & Cookies