O barulho vinha de longe, um som estranho e repetitivo que foi chegando mais perto, e mais perto, até que ela abriu os olhos e tateou no móvel de cabeceira à procura do celular. Com os olhos semiabertos, ela viu 5h30 em números grandes no aparelho. Embora quisesse recusar aquela verdade dura, se sentou, colocou o pé no chão e escorreu – como um personagem de desenho animado que muda de forma – até a cozinha. Encontrava-se naquela área nebulosa entre o estar dormindo e estar desperta, e com um movimento robótico após ter recuperado a forma meio desgrenhada de mulher, colocou a água para ferver e pegou o pote de café.
Depois de alguns minutos, o líquido quente descia garganta abaixo, forte e doce, com todo o seu poder de dar vida a um organismo inanimado. Magicamente e lentamente ela foi acordando e logo estava pronta para mais um dia de correria de sua rotina. Assim era todo dia. Assim é todo dia, graças ao café.
Mas não é só a função de devolver a alma ao corpo de manhã que tem o café – é bom explicar para o caso de alguém não entender o motivo de existirem tantos dependentes. Uma função das mais importantes é que a cafeína dá uma automática sensação de ancoramento quando as emoções e os pensamentos estão agitados. Para mim, basta tomar um café para acalmar a tempestade interior e voltar para a Terra.
Café também abraça, esquentando a gente por dentro, quando a gente precisa de colo e aconchego e não tem ninguém à mão que possa suprir a nossa necessidade. Ainda mais quando é doce.
Acho que as pessoas que tomam sem açúcar são mais evoluídas porque não precisam mais daquele conforto bom que um docinho dá. Aliás, café depois do almoço tem função dupla: combater o sono e substituir a sobremesa. Funciona na maior parte das vezes.
E não podemos esquecer da função social do café. Quem nunca usou o “Vamos marcar um café?” para rever amigos, para fofocar, para fechar negócios, para paquerar. No trabalho, então, o cantinho do café é espaço sagrado, onde se deixa de lado, por uns minutos, a tarefa para a qual fomos contratados e passamos a conversar com colegas sobre temas aleatórios, regados a um cafezinho.
O café pode ser ruim, verdade seja dita, mas muitas vezes a gente toma mesmo assim. Por motivos que se sobrepõem à necessidade de agradar nossas papilas gustativas. Qualquer uma das funções apresentadas nesse texto justifica com louvor o café ruim. Claro que se ele for bom, muito melhor. As papilas gustativas ficam felizes e o estômago também.
Quem não fica feliz é o nosso orçamento. O preço do café está na estratosfera. A gente fica meia hora parado na frente da prateleira do supermercado, olhar vagando entre os pacotes das diversas marcas e os preços. Toda vez precisamos de um tempo para internalizar que o preço é esse mesmo. Quando aceitamos que não tem jeito, fica fácil, melhor pegar o da marca que acorda, abraça e deixa o estômago feliz.





