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quarta-feira, 22 maio, 2024
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Outubro Rosa: Qual a maior dificuldade da mulher preta com câncer de mama?

Por Juliana Luz, colunista do Portal Big ABC

Tive um imenso prazer de conversar com a Débora Alves (Deby para os íntimos), a Deby tem 44 anos e empreende há 25 anos, se tornou consultora de Imagem e Estilo com especialização em plus size e trabalha também na RM Consulting, cuidando da área do CRM.

Uma mulher preta, que cria seus filhos sozinha há 14 anos e, no ano de 2020, em meio a uma pandemia, descobriu pela segunda vez que estava com câncer, só que dessa vez era de mama, antes dessa descoberta ela já tinha passado por um tratamento de tumor no ovário, na qual retirou o órgão doente, útero e trompas por meio cirurgia.

A descoberta do câncer de mama

Após passar pelo primeiro diagnóstico da doença, a Deby começou olhar pra si de um modo diferente, após 8 meses do tratamento do tumor do ovário, ela foi tomar um banho e resolveu fazer o autoexame da mama e foi se tocando que ela sentiu algo diferente na mama esquerda, como ela tinha uma prótese de silicone há mais de 14 anos, Deby pensou que era alguma ruptura, decidiu procurar o médico, que falou que era apenas uma glândula mamaria.

Passou-se 15 dias quando Deby voltou ao médico, pois a bolinha da mama tinha aumentado e ela informou ao médico que não era normal, então ele falou pediu um ultrassom e uma mamografia para a Deby ficar mais tranquila.

A Deby fez o ultrassom e na mesma hora o médico pediu que retornasse à sala. Então para a surpresa dela, a prótese de silicone estava intacta só que tinha uma bolinha, e o médico ia ter que fazer a biopsia urgente.

Após quatro dias, ela retornou ao médico e recebeu a notícia do câncer de mama, a Deby me falou que quando ouviu a palavra câncer ela não ouvia mais a voz do médico e ela só conseguia chorar. Em março de 2020, dois dias antes de ser decreto o lockdown, devido ao coronavírus, Deby saiu do consultório médico abalada, sentou em um sofá em um shopping e falou com Deus, pois é uma mulher com muita fé. A única coisa que ela pediu para Deus foi: “me dê muita alegria para viver e me dê força para passar por mais essa”.

Ela foi para casa e contou para a família, a Débora me relatou que a família dela quis protegê-la de tudo e de todos. Uma mulher preta, empreendedora, em meio a uma pandemia, descobrir o câncer de mama, e agora? A maior preocupação dela era como ia fazer para cuidar dos seus filhos e do seu lar. Ela falou que Deus providenciou tudo e todos os cuidados, todas as pessoas que estavam em sua volta a ajudaram muito, amigos traziam comida, pois as crianças não conseguiriam cozinhar todos os dias. Ela fala que tudo foi a mão de Deus.

Quando começou o tratamento, ela me informou que tinha convênio e todos os remédios e tratamentos foram cobertos pelo convênio, mas, sabemos que a grande maioria das mulheres e, principalmente, as mulheres pretas, não tem condições e nem acesso a saúde privada e depende do SUS. Por isso, Débora falou que a nossa obrigação é transmitir informação para essas pessoas que existem ONGS, que cuidam e tratam da mulher sem custo. “A mulher preta precisa se enxergar, precisa se dar o direito de ser cuidada”, afirmou.

O período desafiador da Deby foi quando o cabelo começou a cair, ela me relatou que não conseguiu se olhar no espelho por dois dias. Até que ela se lembrou das clientes dela e a mensagem que ela transmitia, que era de se permitir, se aceitar. Ela pensou e falou consigo mesma: “Débora! Como você sempre incentivou, mostrou o quanto é importante a mulher se amar, não importa a aparência física e você está preocupada com um cabelo? Você é muito mais que um cabelo”. E falando consigo mesma, pegou o celular e gravou um vídeo para o canal dela no Youtube.

Dia de raspar o cabelo após 22 dias da quimioterapia

Ela falou que foi libertador, nunca mais escondeu a careca e agregou um acessório ao seu estilo, o chapéu.

Enquanto fazia as sessões de quimioterapia, conversava muito com o seu corpo, com a suas células: “nosso corpo fala e ouve”. Ela crê que Deus nos deu um poder, o de profetizar e de determinar coisas boas para nossa vida. Ela passou um período bem debilitada, até que um certo dia ela foi ao médico e falou que precisava viver, fazer exercício físico e o que mais ama fazer, dançar. Óbvio que o médico não a liberou, ela deu uma gargalhada gostosa e falou: “Ju pode ter sido irresponsável, mas virei para médico e disse ‘eu me libero’ se não eu vou morrer de tristeza”.

Ela nos contou o quanto foi importante ela resgatar a autoestima, pois sabemos que a autoestima da mulher preta demora um pouco mais a ser construída.

Ela se reinventou, conversou com uma amiga (TATI) que liberou um espaço para ela voltar as atividades, começou a fazer vídeos e, com isso, a vender também. Voltando as atividades e fazendo o que ela mais ama que é dançar samba, ela nunca mais sentiu enjoos, fraquezas, ela fez mais 18 quimioterapia e, como ela disse, passou por todo o processo plena.

Ela não precisou fazer a mastectomia, pois o tumor reduziu bastante, ela apenas retirou o quadrante e após a cirurgia soube que infelizmente teve que tirar a axila, pois estava com câncer também. Foi outro desafio, porque ela perdeu a forca no braço, mas foi um processo de transição, pois ela queria desacelerar um pouco naquilo que ela fazia, ela queria novos horizontes. Palestrar, ajudar outras mulheres, ela queria focar nessa parte da profissão. Ela passou por todo esse processo até o final do ano de 2020.

Novos rumos

Em janeiro de 2021, ela recebeu uma ligação da Rachel Maia (Ceo RM Consulting). A Deby recebeu um convite para trabalhar com ela, dentro da consultoria de diversidade, igualdade e inclusão. Durante todo esse processo, a Deby falou que estava descobrindo a sua negritude, com esse convite foi algo que ela realmente queria e, aos 43 anos, a Deby entrou no mercado de trabalho e no regime CLT. E, hoje, ela é funcionária da RM Consulting.

A Deby relatou que ainda precisa de acompanhamento médico, tem que tomar remédio, mas ela declara que venceu o câncer.

E o que ela deixa para outras mulheres que estão passando por esse mesmo processo é: “vai ficar tudo bem, tudo tem um propósito”. Único erro que ela cometeu foi o de não pedir ajuda, ela me falou que sempre pensou que tinha eu enfrentar tudo sozinha, que tinha que ser forte.

Eu perguntei para ela: Qual o conselho mais precioso que daria para as mulheres que estão passando por esse mesmo processo, em especial as mulheres pretas? Para minha surpresa! Ela respondeu:

“Seja Egoísta , mas sabe porque quando eu falo essa palavra, é para impactar mesmo, não é que eu acredite que seja a palavra certa, mas porque queremos colocar tudo em primeiro lugar, nossos filhos, família, esposo, mas quando estamos com câncer temos que ser egoísta e nos cuidar primeiro, nos colocar como prioridade, sim, é ser egoísta. É você olhar para você e que exploda o mundo. Pois nada vai adiantar, se você não estiver bem, o que você ama fazer? Faça. É hora de olhar para si, permita-se ser amada.”

E aqui termina mais uma coluna com uma história da vida real.
Deby, em nome do Portal Big ABC, quero agradecer por compartilhar sua história tão íntima.

 

Em tempo:

Lembrando da nossa caminhada virtual da ONG Viva melhor que ainda dá tempo de participar, será dia 17/10/2021. Clique aqui e saiba mais!

 

Um beijo fiquem com Deus e até a próxima.

SAWUBONA SHIKOBA: Eu vejo você. A importância do pertencimento.

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