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quinta-feira, 14 maio, 2026
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Colunista Paola Zanei 

Um bode na sala

Hoje acordei com o bode na sala. Um bodão, de pijama e chinelo sentado no sofá. Eu ignorei aquela cara feia, fui fazer meu café, me aprontar. Peguei a primeira roupa que apareceu na frente, nem me dei ao trabalho de pensar a respeito. “Vai essa mesma, que está muito bom”. O cabelo também não está aquela beleza, “mas que se dane, eu dou uma prendidinha com a presilha. Fica sem graça, mas beleza, quem se importa?”. Peguei meu café e sentei na mesa da cozinha. O bode me olhando fixamente. “Sai daí, meu. Não gosto não de você aí. Vaza!”. Ele apenas me olhou com ar esnobe e continuou ali. Vencida, resmunguei e dei uma olhadinha no Instagram, como de costume. Achei tudo um saco. Então, distribuí uns bom dias secos no WathsApp, corri pra colocar uma base na cara e um batonzinho na boca. Minutos voam de manhã. Saí esquecendo os óculos de grau em cima da mesa. E esse bode inútil, nem pra me avisar. Mas antes que eu fechasse a porta, ele meteu o pé, e sem uma palavra esperou o elevador comigo. Elevador este que demorou o que me pareceu uma vida. Minutos safados! Depois ficou ao meu lado, de pé esperando o Uber chegar, me olhando. O traste me fez arrastá-lo até o trabalho e depois sentou do meu lado na minha mesa, em frente da janela, bloqueando a entrada do Sol. “Que raio de dia mais chato, com esse bode colado em mim!”. Por falta de forças para enxotar o bode achei melhor deixar ele ali. Procurei no horóscopo a explicação para o irritante animal regendo meu dia azedo. Quer melhor lugar para procurar o motivo de qualquer estado emocional do que na astrologia? A resposta foi certeira: Hoje, Lua e Saturno se encontram no seu signo, provocando desânimo, falta de criatividade, de fé, de imaginação. Foi desse encontro que nasceu o bode, que olhou para mim todo saliente. Há que se ter respeito por bode fruto de conjunção astral. “Pode ficar aí, vai. Amanhã você se manda, hein?”, falei. E ele não sorriu.

O conteúdo deste texto é de total responsabilidade da autora.

 

Paola Zanei (@paolazanei) tem 54 anos e é formada em comunicação desde 1994. Atua há mais de 30 anos no jornalismo, a maior parte deste período como assessora de imprensa. Mas desde os 15 anos escreve poemas e crônicas sobre o cotidiano,, os fatos da sua vida e as emoções que os envolvem. Em 2024, lançou o livro “Poemas para Queimar Certezas”  com poemas selecionados entre os escritos nos últimos anos.

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