Me lembro bem quando ela era pequena e eu a acordava cedinho. Pegava minha filha no berço, colocava ela no colo, com as pernas enroladas na minha cintura e levava até o sofá da sala, tentando minimizar o drama de tirar uma criança pequena tão cedo da cama quentinha. Aí eu ligava a tevê em um desenho animado e corria pada buscar o edredom para cobri-la. A essa altura a mamadeira já estava pronta, porque eu já havia acordado antes para fazer, e ela tomava com o olhar distante nos desenhos, meio sonada.
Essa foi minha rotina durante um bom tempo, até não poder carregá-la mais de tão pesada. Mas o edredom eu ainda busquei por um tempão, coisa que talvez não ajudasse muito a desapegar da cama. Até que um dia chegou a vez de a mamadeira ir embora. Eu no fundo não queria. Me dava um calor intenso no coração, um aquecimento de amor no peito, ver aquela menininha aninhada no sofá tomando mamadeira e vendo desenho de manhã.
A mamadeira era pra mim um símbolo da primeira infância, daquela pessoinha pequena aprendendo aos poucos exatamente tudo. E aí, quando o aprendizado vai transbordando, coisas novas vão chegando, como copos. Não há mais espaço pra mamadeira, nem para chupeta, nem para paninhos que se encostam nas bochechas.
E assim, fase por fase, todas as coisas e brincadeiras foram ficando para trás. As mímicas de bicho na cama de casal, as bonecas espalhadas no sofá, as cabanas de lençol, os celulares de mentira, as figurinhas de princesa, os jogos nos tablets, o incansável Nemo, o Bob Esponja no PlayStation. Nossa, elencar esses momentos que estavam sob camadas e mais camadas de dias de hoje e suas providências bem mais urgentes, chega a apertar o coração. Visto daqui, agora, parece que foi em uma outra vida.
Mas só parece. E até que é bom afastar as lembranças para saborear os momentos novos. Agora é a fase das longas conversas sobre o passado, o presente e o futuro na hora do jantar, da escolha dos looks para os programas com o namorado e as festas da faculdade, das idas ao shopping repletas de risadas.
Não dá pra segurar a água nas mãos, nem prender o tempo no relógio. A vida segue por mais que a gente queira carregar nossos filhos no colo pra sempre. Aproveitar cada segundo é a nossa única opção.
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Paola Zanei (@paolazanei) tem 54 anos e é formada em comunicação desde 1994. Atua há mais de 30 anos no jornalismo, a maior parte deste período como assessora de imprensa. Mas desde os 15 anos escreve poemas e crônicas sobre o cotidiano,, os fatos da sua vida e as emoções que os envolvem. Em 2024, lançou o livro “Poemas para Queimar Certezas” com poemas selecionados entre os escritos nos últimos anos.





