O espetáculo “Mulheres em Chamas” tem lotado teatros e confirmado algo que por muito tempo foi visto como tabu: mulheres querem — e precisam — falar sobre menopausa. A montagem, que já atraiu mais de 3 mil espectadores no Teatro UOL, no Shopping Pátio Higienópolis, segue agora para o Teatro Bradesco, em temporada até 6 de dezembro, ampliando ainda mais sua capacidade de público.
Criada e protagonizada por Camila Raffanti, Juliana Araripe e Miá Mello, todas acima dos 40 anos, a peça tem direção de Paula Cohen e apresenta um recorte bem-humorado, sensível e absolutamente identificável do universo feminino contemporâneo.
Menopausa no centro da conversa — e das gargalhadas
A recepção calorosa do público mostra que existe demanda por narrativas que abordem o envelhecimento feminino com naturalidade e humor. Mulheres de todas as gerações — mães, avós, filhas, tias e amigas — se reconhecem nos temas e sintomas retratados em cena.
Durante a sessão, minha mãe, de 61 anos, não conteve o entusiasmo: “Na minha época era um tabu, não se falava disso”, comentou entre risos, reconhecendo em cada fala e gesto das personagens um pouco de sua própria experiência.
Três mulheres, 70 sintomas e um elevador parado
“Mulheres em Chamas” parte de uma situação simples: três desconhecidas ficam presas em um elevador por 17 minutos. Sem sinal de celular e sem escapatória, o que começa como um contratempo vira uma catarse coletiva. Em meio aos mais de 70 sintomas possíveis da menopausa, as protagonistas dividem inseguranças, medos e a sobrecarga de vidas que insistem em correr mais rápido do que o corpo acompanha.
Cada uma representa um recorte comum da vida adulta:
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A advogada casada e mãe de quatro filhos, tentando equilibrar mil papéis.
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A recém-separada, mãe de pet, enfrentando as ansiedades de uma nova vida.
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A dentista que deixou para trás um noivado de 17 anos e tenta se reencontrar.
Juntas, elas discutem corpo, envelhecimento, autoestima e pressão social — tudo isso entre crises de riso e momentos de vulnerabilidade.
Humor ácido sobre um tema real
Um dos pontos altos da peça é a forma espirituosa como aborda lapsos de memória — representados por um “branco” que ganha voz própria — e o caos hormonal que acompanha essa fase da vida. A plateia vibra, ri e se reconhece.
Ao final, fica clara a mensagem central: envelhecer é inevitável, mas enfrentá-lo em rede — entre amigas, irmãs e outras figuras femininas — torna tudo mais leve. Não à toa, o público majoritariamente feminino sai do teatro com a sensação de acolhimento, identificação e, principalmente, alívio por ver suas vivências legitimadas no palco.
“Mulheres em Chamas” mostra que falar de menopausa pode ser divertido, profundo e necessário — especialmente quando feito com tanta verdade e entrega.
Esse texto foi escrito em colaboração com a jornalista Natália Regazzo
https://nregazzo.substack.com/
Foto: Edu Pimenta/ Divulgação





