Vai verão, vem verão, e quem não dá um jeito de pisar nas areias escaldantes das praias brasileiras no mês de janeiro é, sem sombra de dúvida, um ser diferenciado. Porque parece que o mundo dá um jeito de ir à praia no primeiro mês do ano. E nesses quase 3 mil km de praias que temos no Brasil, cabe quase todo mundo. Existem cerca de 2 mil praias catalogadas ao longo dos 17 estados litorâneos brasileiros, segundo o Ministério do Turismo.
Ali, sob um sol de 35 graus, apertamos nossa família embaixo do guarda-sol e em torno do super cooler, que não sei porque, não pode ir para o sol. Ou passamos o dia chegando as cadeiras “um pouquinho” para a direita, acompanhando o movimento do sol, ou melhor, fugindo dele.
Às vezes reclamamos da música alta do vizinho, que nos dificulta ouvir o tranquilizador barulho das ondas. Mas tudo bem, compensamos esse inconveniente conversando, ou falando alto para ganhar do funk, ou do pagode ou do Pedro Sampaio da barraca de trás.
Ou então pedimos mais uma cerveja, quem sabe um pastel. Afinal, agora temos que consumir os R$ 100 que estamos pagando pelo uso do guarda-sol. Se não pagar antecipado, fique sabendo, vai torrar no sol e, no fim das contas, gastará mais do que isso em pomada para queimadura e soro para desidratação.
Conformados, aceitamos, e no fim do dia, cheios de cerveja, pastel, caipirinha e etc, achamos que nem era tão absurdo assim. E etecetera é o que mais tem. Tem a mulher das empadas, a do gelinho gourmet, a do lanche natural, a raspadinha, o açaí e o milho verde.
E tem o carrinho de caipirinha e batidas diversas que tem três rapazes morenos, de camisa branca e suspensório preso à bermuda preta, e com um detalhe que não posso esquecer: gravata-borboleta. Não cheguei à conclusão se essa produção dá resultado nas vendas, ou o que dá resultado é a amostra grátis deliciosa que eles distribuem de guarda-sol em guarda-sol.
Gosto também de reparar na constante presença do Homem-Aranha, mas não me sinto muito segura, confesso. Todos os multiversos, das múltiplas dimensões de derrocada total e vergonha alheia, cuspiram seus Homens-Aranha mal ajambrados para as praias brasileiras para vender algodão doce. Um é gordo, outro é magro, um é baixo, outro está de chinelo, as roupas coladas – o que seria desnecessário nesse caso estão invariavelmente desbotadas.
Mas acho que são Homens Aranha legítimos porque, faça o calor que fizer, os coitados não tiram a máscara. Guerreiros, incansáveis, andando resignados sob o sol. E as crianças nem lhes notam a presença, tão ocupadas que estão sendo crianças. Naquele lugar mágico, onde não são permitidos celulares, nem há tevês ou sequer paredes, há aquele momento onde o que resta a fazer é um longo e enrolado caminho desenhado na areia, que se percorre num pé só.

Paola Zanei (@paolazanei) tem 54 anos e é formada em comunicação desde 1994. Atua há mais de 30 anos no jornalismo, a maior parte deste período como assessora de imprensa. Mas desde os 15 anos escreve poemas e crônicas sobre o cotidiano,, os fatos da sua vida e as emoções que os envolvem. Em 2024, lançou o livro “Poemas para Queimar Certezas” com poemas selecionados entre os escritos nos últimos anos.
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