Acabo de ser convidada para o aniversário de 40 anos de uma amiga que nasceu na década de 80 e quer comemorar ao som, com as cores e a vibe daquela época que dá um quentinho no coração. Eu já era adolescente, posso encher a boca pra falar que aproveitei aqueles anos como todo mundo e sem saber o quanto era legal. Em 1980 eu tinha 8 anos, nasci no fim de 71, e em 86, quando Queen e Cazuza estavam no auge, eu chegava também ao auge da adolescência nos meus 15 anos.
Me lembro muito de assistir ao filme Flashdance, lançado em 1983, sete vezes, emendando sessões, no extinto cinema Estúdio Center, que como muitos virou um templo evangélico na galeria de mesmo nome, bem no Centro de Santo André. Flashdance foi um dos grandes marcos do cinema nos anos 80, e influenciou a moda e a música do período. Eu e minha amiga copiávamos as coreografias, trancadas no quarto, com nossas polainas e bandanas na cabeça.
Era tempo dos bailinhos de garagem, ou melhor, de salão de festa. Supervisionado sempre por um adulto – que normalmente era enxotado –, os bailinhos tocavam música romântica, à meia luz, e cada um levava um prato de comida ou refrigerante. Tenho a memória muito nítida de um desses em que eu dancei com um menino que eu estava a fim. Essa coisa de “ficar” não era assim como hoje. Não teve beijo, mas aquela proximidade física ao som de “Lady in Red” foi mágica. Eu, adolescente e tímida na época, guardo até hoje aquele momento na estante das memórias mais queridas. Coração pulava no peito. Cheguei a achar que ele ia sentir.
Para ouvir as músicas, em uma época em que o rock nacional bombava com nomes como Cazuza e Blitz, e o pop dominava as paradas com Cindy Lauper e seu “Girls Just Wanna Have Fun” (1983), e Madonna, com “Material Girl” (1984), eu tinha um rádio com fita cassete, prateado e razoavelmente grande para os padrões de hoje. Ele era tão importante que tinha até nome, era Jorge. O porquê eu não sei, mas ele era popular entre minhas amigas.

Jorge nos acompanhava até na viagens, mesmo não sendo pequeno. Ele era a responsável pela maravilhosa trilha sonora que embalou nossos papos na calçada até altas horas em Mongaguá, as partidas de truco, ou nossas paqueras de verão, ao som de clássicos como “Every Breath You Take” (1983) e “Dont Stop Belive” (1981) e o incansável “Invisible Touch”, do Genesis (1986).
Bem, são muitas memórias e, agora que puxei o fio da meada, está difícil parar. Então vou tentar concluir para não me alongar demais. Só que tem uma experiência da época que não posso deixar de lado: a chegada dos Escort Hatch vermelho do meu primeiro namorado. Tinha rádio que a gente tirava a frente para evitar assalto e teto solar! O que mais a gente podia querer naquela época, aos 18 anos? Esse modelo de carro foi lançado no Brasil em 84 e era o sonho de consumo dos jovens. Ele ganhou um usado, por volta de 89. Curtimos muito naquele carro.
Hoje em dia, os anos 80 parece que carregam uma magia especial, talvez porque não havia internet, celular, streaming, toda a tecnologia que absorve muito de nós hoje. E muito já se falou sobre isso. Havia coisas bem ruins como inflação, medo da bomba atômica se a Guerra Fria resolvesse esquentar, a morte do primeiro presidente eleito após muito tempo, o Tancredo Neves (1985). Mas a vida, com as cores neon das calças OP (Ocean Pacific), era bem mais simples. O namorado da minha filha me disse, dias desses, que se encontrasse um gênio da lâmpada, pediria para viver pelo menos um dia nos anos 80. Eu entendo. Ele nasceu no ano 2000. Já eram outros quinhentos.
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Paola Zanei (@paolazanei) tem 54 anos e é formada em comunicação desde 1994. Atua há mais de 30 anos no jornalismo, a maior parte deste período como assessora de imprensa. Mas desde os 15 anos escreve poemas e crônicas sobre o cotidiano,, os fatos da sua vida e as emoções que os envolvem. Em 2024, lançou o livro “Poemas para Queimar Certezas” com poemas selecionados entre os escritos nos últimos anos.





